Os chatos fundamentalistas


Estava eu tomando café da manhã num hotel em São Paulo, lembrei-me que era quinta-feira, dia que Contardo Calligaris escreve na Folha.  Procurei o jornal e pus-me a ler a sua coluna intitulada, “Sentidos do fundamentalismo”, durante o café.

Dizia Calligaris: “Fundamentalista é, antes de mais nada, quem leva a sério sua convicção e segue à risca os preceitos que derivam dela. Se você for católico, não se divorciará nem comerá carne na Sexta da Paixão. Se for judeu, no sábado, evitará ligar a luz elétrica; se for muçulmano, não tomará álcool e, caso seja mulher, circulará de véu fora de casa; se for ateu, não invocará a misericórdia divina, nem mesmo em momentos de extremo perigo”.

Digo eu, penso que todos têm direito as suas convicções, sejam atéias ou crentes. O problema no plano religioso está na interpretaçãofalo aqui como cristão ─ do mandamento bíblico assim posto: “Ide, pois, ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo." Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo (Mt 28,19-20). Este mandamento a meu sentir é interpretado de forma fundamentalista por boa parte dos cristãos, o que gera um grande desconforto por aqueles que não querem seguir qualquer religião.

do lado dos ateus, é ligar a televisão para ver o bombardeio diário contra os crentes, no que se apresenta como uma laicismo repugnante. Os chatos fundamentalistas estão dos dois lados. É interessante notar que este fundamentalismo do lado cristão não é recomendado pelo Santo Padre Bento XVI, que em Aparecida do Norte (2005), disse com voz forte:

“A Igreja não faz proselitismo. Ela cresce muito mais por 'atração': como Cristo 'atrai todos a si' com a força do seu amor, que culminou no sacrifício da cruz, assim a igreja cumpre a sua missão na medida em que, associada a Cristo, cumpre a sua obra, conformando-se em espírito e concretamente com a caridade do seu Senhor”.

Proselitismo é a atividade daquele que quer fazer seguidores. Ainda que não pugnado pelo Papa, a verdade é que as organizações religiosas ou mesmo os crentes leigos, sobretudo os fundamentalistas, vivem de fazer proselitismos, ainda que com o coração repleto de “boa vontade”.

Nos dias atuais o proselitismo está presente nos dois lados: crentes e ateus. Como bem diz Calligaris, “fundamentalista é quem exige que os preceitos que derivam de suas convicções ou de sua sejam observados por todosou mesmo que eles se transformem em lei da sociedade inteira. Esse tipo de fundamentalista, seja qual for a sua convicção, religiosa ou atéia, é animado pela necessidade de converter os outros, a qualquer custo. Em geral, ele acha que a violência de seu espíritomissionário” é um corolário de sua e uma prova de sua generosidade: “forçando o outro a se converter, eu quero seu bem, mesmo que seja contra a vontade dele”.

Conheço os dois lados da moeda (crentes e ateus), e para mim os “missionários” de ambas vertentes são uns chatos de plantão, verdadeiras malas que não respeitam a liberdade alheia. Tem alguém mais chato do que o ateu Richard Dawkins? E aquele seu vizinho crente que não para de perturbar para visitar a igreja dele?

Concordo com alguns reparos, com Luiz Felipe Ponde (“Saudades de Deus”) quando diz que: “crer ou não crer não é algo que você escolhe. “acontece”. Grandes teólogos como Santo Agostinho, Lutero e Calvino diziam que a “ é uma graça” (simplificando a coisa), alguns receberam o dom e outros não... Acho essa idéia bem mais elegante do que esse papo furado acerca das necessidades racionais, sociais, morais ou psíquicas da crença.”

É a pura verdade, a é uma graça de Deus. Peço a Deus todo dia que aumente a minha . Os batizados a recebem no batismo, mas nem todo a mantém. Igualmente, conheço gente ruim dos dois lados: ateus e crentes. A miséria moral costuma não escolher os eleitos, é pura roleta russa.

Quanto aos cristãos, minha praia, penso que os “missionários do apostoladosão de um fundamentalismo que Cristo mesmo não pregou. Aliás, como bem anotado por Luiz Paulo Horta, (“Igreja e sociedade”). A lei de Cristo é uma lei mais leve, “o meu fardo é leve”, menos detalhista, mais centrada no Amor, ainda que também tenha suas exigências, “quem quiser vir pelo meu caminho, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga”.

Enfim, as lições de Bento XVI em Aparecida do Norte servem para os dois lados, ou seja, é preciso atrair os seguidores pela força do amor, sejam os missionários do apostolado, crentes ou ateus. Abaixo os chatos fundamentalistas!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Poema esquisito - Adélia Prado

O homem em oração - Bento XVI