Ouse ignorar
"Com Kant, a razão humana proclamava sua independência do mundo externo, mudando radicalmente o sentido da "verdade". Antes, a verdade consistia na coincidência do pensado com a ordem dos fatos conhecidos. Agora, passava a ser a obediência a uma filtragem racional predeterminada, a um método livremente concebido pela razão por meio da análise kantiana de si mesma. Mas, se tudo o que nos é acessível vem do nosso aparato de percepção, e se as percepções por sua vez têm de ser enquadradas nas categorias do pensamento racional, o resultado é que nossa razão é soberana em face de todo objeto de conhecimento possível: ela não tem de prestar satisfações a nenhuma "realidade" externa, mas, ao contrário, ela determina as condições que essa realidade tem de cumprir para ser admitida no mundo do conhecimento. A sentença "Se os fatos não confirmam a minha teoria, pior para os fatos" é de Hegel, mas ela expressa antes a quintessência do iluminismo kantian...