Reflexões sobre o bem e o mal
Reconheço a existência e a força
do bem e do mal, e a história tem nos mostrado isso. Onde nasce o bem, pode
nascer o mal e também vice-versa, por isso sempre me chamou atenção a parábola
bíblica do joio e do trigo, quando os discípulos tentam extirpar o joio do
trigo, Jesus sinaliza aos discípulos que não, é o que lemos em Mt 13: 24-30,
“Queres, então, que vamos
arrancá-lo? Não, respondeu ele, para que não suceda que, tirando o joio,
arranqueis juntamente com ele também o trigo. Deixai crescer ambos juntos até a
ceifa; e no tempo da ceifa direi aos ceifeiros: Ajuntai primeiro o joio e
atai-o em feixes para o queimar, mas recolhei o trigo no meu celeiro.”
Há diversas interpretações teológicas
sobre o que Jesus quis dizer com a expressão “tempo da ceifa”, porém, o fato é
que Jesus reconhece a presença do mal e sua inafastabilidade até que advenha o chamado
“tempo da ceifa”.
Falei isto meio que para introduzir
o que li hoje no GLOBO sobre o cineasta cambojano Rith Panh, que terá exposição
de sua obra de hoje a 11 de novembro no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil).
Durante o terrível regime de Pol Pot e seu Khmer Vermelho, de 1975 a 1979, o
cineasta perdeu os pais, as irmãs e outros parentes, no entanto, ele conseguiu
fugir para Tailândia e de lá foi levado por organizações internacionais para a
França, onde estudou cinema.
Seu cinema existe para lembrar o
que aconteceu com seu povo e sua família. Pois bem. Rith Panh tem a sua opinião
sobre o mal, e é isso que gostaria de compartilhar com o leitor.
Segundo ele: “o mal está dentro
do ser humano, faz parte de quem somos, não se trata de algo novo ou incrível.
Fazer o mal é mais fácil do que fazer o bem. Por isso, costumo criticar como as
pessoas entendem o conceito de Hannah Arendt sobre a “banalidade do mal”. Em
situações extremas, há pessoas que agem em desacordo com a maioria e encontram
o caminho para fazer o bem. Gosto de encarar essas pessoas, que também retrato
nos filmes, como o resultado da “banalidade do bem”. Foram elas que ajudaram os
outros durante o governo do Khmer Vermelho e deram esperança para nosso país.”
Uma primeira conclusão minha:
do ponto de vista social o mal está quase sempre do lado da maioria, daí porque
temo sempre a vontade da maioria.
Uma segunda conclusão: uma
sociedade democrática deve prestigiar sempre o direito ao dissenso, elemento
garantidor da minoria, ou nas palavras de Rithy Panh, uma minoria pode ser um “um
caminho para fazer o bem”.
Uma terceira conclusão: há
presença do mal também na minoria, porém, a eficácia do mal nela é inoperante
em termos qualitativos e quantitativos, diferentemente de quando o mal se
manifesta na maioria.
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