Facebook e as amizades


O filósofo alemão Immanuel Kant de passagem pelo Brasil foi convidado a gravar o programa Roda Viva da TV Cultura. Antes da gravação, porém, gentilmente respondeu perguntas formuladas pela Revista Filosofia.

Revista Filosofia: ─ De que maneira você compreende a questão da amizade que tanto se hoje nas redes sociais?

Kant – Penso que o que se dá via estas redes sociais não pode ser necessariamente chamado de amizade. A amizade pressupõe a meu ver o encontro pessoal e real entre as pessoas. Amizade virtual como o próprio nome diz é irreal. Se conheço uma pessoa, converso com ela, divido com ela minhas angústias e alegrias, posso vir a ser amigo dela no facebook. Porém, se a conheço via facebook penso tratar-se de qualquer outra coisa, menos amizade, pelo menos por enquanto. Amizade é um encontro de corpo e mente, de olho no olho, e isto não ocorre nas redes sociais, pelo menos que eu saiba o computador ainda não me permite abraçar o meu amigo do outro lado. E eu como gente, necessito disto.

Revista Filosofia ─ Dizem que a primavera árabe, movimento revolucionário que derrubou algumas ditaduras no oriente foi difundida inicialmente nas redes sociais, o que você acha disto?”

Kant ─ É verdade, dizem isto. Todavia, isto não tem nada a ver com a amizade. As pessoas podem marcar encontro via redes sociais sem nenhuma amizade que as ligue, tão somente um ideal como foi no caso citado por você. As redes sociais promovem uma aproximação que deve ser necessariamente realizada no real (perdoem-me a redundância) sob pena de vivermos em uma ilha da fantasia. É muito fácil seramigo” no facebook, quero ver ser amigo é no dia a dia, no olho a olho, isto é que me parece que estamos perdendo a noção. A pessoa tem 400 amigos no facebook, no entanto, na realidade não tem sequer 10 pessoas que possam com ela dividir as dúvidas e os medos. Comunicamos-nos muito, mas na essência continuamos sem contatos enriquecedores. Precisamos do outro como presença viva diante de nós, e não escondido atrás de uma tela de um computador. Eu mesmo posso narrar uma experiência para você. Existem pessoas que convivem comigo na universidade onde trabalho e me convidaram inclusive para seramigo” no facebook. No entanto, encontram comigo nos corredores e sequer olham para o meu rosto, ou seja, querem ser amigos no facebook, mas não querem me cumprimentar, pode isto? Evidente que não, estamos diante de pseudo amizades.

Revista Filosofia ─ Você está querendo dizer que as pessoas estão trocando o virtual pelo real?

Kant ─ Passa por . O que eu estou querendo dizer é que a vida se dá na realidade, no encontro pessoal com o outro e não no encontro virtual. O virtual há de ser um início e jamais um fim em si mesmo. Conheço pessoas que são uma maravilha quando se manifestam no facebook, mas que pessoalmente são uns desastres no contato face a face. O facebook torna-se neste caso uma falsa representação da pessoa. Precisamos conhecer o outro por inteiro, na medida do possível é claro. Nãoamizade sem este encontro pessoal. Outra coisa que me incomoda é o excesso de ostentação que só gera competitividade. É muita vitória e nenhuma derrota, o que mais uma vez demonstra que estamos num mundo irreal, já que no mundo real a derrota é mais frequente. Pessoalmente, corpo a corpo, duvido que falaríamos isto que estamos a dizer no facebook uns para os outros, teríamos mais comedimento, mais respeito pelo outro e menos vaidade. O mundo virtual potencializa a vaidade. Como construir relacionamentos a partir de tanta irrealidade? um jeito. Desligarmos o computador e ir pessoalmente ao encontro do outro. Enfim, pagar o preço do desapontamento e quem sabe do contentamento, para mim e para ele ou ela.

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