"Contra um mundo melhor"


Acabei de ler estes dias o livro “Contra um mundo melhor – ensaios do afeto” do filósofo Luiz Felipe Pondé, que também é colunista da Folha de São Paulo, onde escreve todas às segundas-feiras. Pondé é um desconstrutor da hipocrisia da sociedade atual. Bate em tudo com uma verve saborosa e rica. O livro reúne parte do seu trabalho publicado na Folha. É ótimo.

Cito: “A intimidade só existe quando há invasão do outro. Acho muito engraçado quando os arautos da chamada “ética da alteridade” (o respeito ao “outro” como pilar das relações humanas” querem contaminar a promiscuidade da vida sexual e amorosa com esse papo de respeito ao outro. Quando você respeita o outro, é porque já ficou indiferente a ele. Quando amamos e desejamos, violamos. E ela pede mais. O mundo melhor com o qual os idiotas sonham é um mundo sem amor e sem desejo” Pág. 79.

Cito: “Humildade é a grande virtude de Davi, motivo pelo qual é chamado de o “predileto de Deus”, porque pensa com o coração e por isso o tem no lugar certo, aquele lugar a partir do qual confessa suas fraquezas. Sempre me encantei por aqueles que vivem em meio a suas fraquezas, como as mulheres. Uma das coisas que me atrai nas mulheres, além de suas pernas, é sua capacidade para enfrentar, sem falsa arrogância, a fragilidade das coisas e de si mesmas”. Pág. 129.

Cito: “A covardia e o amor à rotina acomodam mais os homens ao crime coletivo e social do que a força das idéias. Em nome de um emprego melhor, em nome de sentir menos medo diariamente, em nome de conseguir melhor qualidade de vida, aceitamos qualquer crime. Toda discussão sobre o massacre nazista (ou qualquer outro) esbarra no fato de que nós, hoje, gostamos de pensar que não faríamos a mesma coisa que aqueles homens e mulheres fizeram. (...) Além disso, nos sentimos mais tranquilos quando outros estão sendo destruídos em nosso lugar. Estamos sempre dispostos a nos calar quando um jantar a mais é garantido” Pág. 147.

Cito por último: “Todo mundo tem seu preço, menos os santos, e estes nós matamos e não queremos em nossas famílias porque tornam inviáveis os acordos sombrios que fazem a vida possível. A vida necessita de um certo quantum de corrupção, do contrário, torna-se irrespirável. Não digo isso com felicidade” pág. 153.

Num mundo de tanta hipocrisia e falso comportamento “politicamente correto”, o livro de Pondé nos faz respirar, resgatando um pouco de nossa verdade e de nossa miséria. Melhor assim, ficamos mais próximos de nós e da misericórdia que devemos clamar. Ou como diz Pondé: “O Deus de Israel não é um Deus da retribuição, é um Deus da graça, ou vivemos numa moral da graça ou numa moral da des-graça” Pág. 206.

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