A igualdade ama a mediocridade



Esta frase título extraída do texto às páginas 42, bem pode sintetizar o conteúdo do livro “Guia politicamente incorreto da filosofia”, de Luis Felipe Pondé, lançado recentemente pela Editora Leya. No meu entender Pondé é o Nélson Rodrigues do século XXI, é lógico, guardada as devidas proporções (para mim, Nélson é inigualável). Nélson era muito mais escritor (dramaturgo, poeta etc) do que Pondé, suas linhas eram traçadas com um rigor estilístico encantador. Nélson também possui um lado conservador mais definido e uma crença espiritual que a todo o momento vem à tona em sua obra. Já Pondé é menos escritor e mais sarcástico com tudo, não tendo uma religiosidade definida. A verdade é que Pondé vive numa sociedade muito mais complexa do que aquela em que viveu Nélson – segunda metade do século XX - razão da multiplicidade de temas abordados pelo segundo. O primeiro foi jornalista por profissão, o segundo é filósofo, ambos, com estilos dissonantes combatem o politicamente correto da vida cotidiana de ontem e de hoje.

Nélson Rodrigues nos legou as “narinas da grã-fina”, a “ousadia dos idiotas” e o “óbvio ululante”. Pondé nos fala dos “jantares inteligentes”, do “sair de férias de avião é brega”, “só o outro insuportável importa”, do “budismo light” e se coloca “contra a covardia”.  Resumo agora trecho de passagens marcantes do livro.

Sobre o viajar demais nos dias atuais; “Um dos projetos da minha vida é não viajar nunca mais, pelo menos, cada vez menos e para menos longe. Exterior, nem pensar. Se acha estranho o que eu estou dizendo, é porque você não viaja o suficiente ou porque sofre daquele tipo de sintoma característico da “espiritualidade” da classe média, que é “querer conhecer o mundo, os museus, os aeroportos sentir o frisson porque irá a Paris (...) Ficar feliz por sair de férias de avião é brega. Um conselho: se você tem mais de 20 anos e acha avião chique, finja que não acha. Sinto dizer, o mundo acabou. Fique em casa” (p. 107).

Sobre os fortes e os fracos: “Movidos pela idéia rousseauniana de que o mais fraco politicamente é por definição melhor moralmente, o exército do politicamente correto se transformou numa grande horda de violência na esfera intelectual nas últimas décadas, criando uma verdadeira “cosmologia” politicamente correta...” (p. 32).

Sobre os “excluídos”: “Para os defensores do politicamente correto, tudo é justificado dizendo que você é pobre, gay, negro, índio, ou seja, algumas das vítimas sociais do mundo contemporâneo. Não se trata de dizer que não há sofrimento na história de tais grupos, mas sim dos exageros do politicamente correto em querer fazer deles os proprietários do monopólio do sofrimento e da capacidade de salvar o mundo. O mundo não tem salvação”. (p. 39).

Sobre o budismo light: “Dizer que se é budista (ninguém deixa de ser católico ou o judeu e vira budista em três semanas de workshop em Angra dos Reis ou num centro budista nas Perdizes, em São Paulo) pega bem em jantares inteligentes, porque dá a entender que você não é um materialista grosseiro, mas sim um espiritualista sustentável. Basicamente, uma religião sustentável não precisa sustentar nada a não ser uma dieta balanceada, uma bike importada e duas ou três latas de lixo de design em casa, para a reciclagem do lixo. Esse é o budismo da gente “chiquinha” de São Paulo. Normalmente é gente com grana, preguiçosa, que nunca quis arrumar o quarto quando era adolescente e, com o budismo light, descobriu que esse é um direito dela, porque no budismo não existe pecado, logo, você por ser preguiçoso com bençãos cósmicas”. (p. 127/128).

Luis Felipe Pondé às vezes exagera, faz parte do jogo retórico dele, mas, que toca com fino humor e sagacidade os dilemas do mundo atual, ah, isso toca!


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