Série "Os filósofos e Deus" - MARX



É de significativo conhecimento a crítica de Karl Marx (1818-1883) à religião. Marx, e por conseguinte o marxismo a partir do século XVIX até os dias atuais, são idéias incompossíveis com a nossa religiosidade católica. Para o marxismo, sobretudo o marxismo cultural, muito bem perceptível por exemplo em autores como Leonardo Boff, Frei Betto e tantos outros, Jesus há que ser visto como um revolucionário, um Che Guevara de "coroa de espinhos na cabeça" ao révés de boina, porém, um revolucionário social. A igreja católica abomina esta idéia que transforma o evangelho em pregação política e Jesus Cristo num político de esquerda. Eu também!

Como ensina Bento XVI, na Encíclica Deus Caritas Est, (p. 52). A ilusão marxista está em pensar que a criação de estruturas sociais justas tornaria a religião supérflua para os homens. Ledo engano! Pura concepção materialista do ser humano, preconceito segundo o qual o ser humano viveria “só de pão” (Mt 4, 4; Dt 8,3). De fato, a formação de estruturas justas não é imediatamente um dever da Igreja, mas pertence à esfera da política. É da  estrutura fundamental do cristianismo a distinção entre o que é de César e o que é de Deus (Mt 22,21), ou noutro dizer, a Igreja, como diz o Concílio Vaticano II, reconhece a “autonomia das realidades temporais”, contudo, cabe à Igreja, consoante Bento XVI, como dever mediato, contribuir para purificação da razão humana e o despertar das forças morais, sem as quais não se constroem estruturas justas, nem estas permanecem operativas por muito tempo, p. 52.

Falemos agora mais de perto sobre Karl Marx. Para Karl Marx  religião “é o ópio do povo”, porque desvia atenção deste mundo e de sua transformação, para o além. Segundo Marx, a religião hipnotiza os homens com falsa superação da miséria e assim destrói sua força de revolta, atuando assim como uma força conservadora no campo social e econômico. (Cf. Urbano Zilles, Filosofia da Religião. 5ª ed. São Paulo: Paulus. 2004. p. 127). 

Marx pensa a religião como um calmante para as massas que sofrem a miséria produzida pela exploração econômica. Sendo assim, a religião (alienação religiosa) é decorrência lógica da miséria econômica (alienação econômica), então, superando-se a miséria econômica pela revolução do proletariado (luta de classes) e a conseqüente produção de bens materiais para todos, a consciência religiosa morrerá por si mesma.

Porém, para eliminar a alienação religiosa é preciso eliminar todas as condições de miséria que a originam. A história, no entanto, provou o contrário. No século XX, a revolução russa, inspirada nas idéias marxistas, e implementada por Lênin e seus seguidores estatizou todos os meios de produção, e toda economia passou a girar em torno do Estado, substituiu-se assim o “ópio do povo”, saiu a religião, entrou o Estado, criou-se uma religião sem Deus: o Estado. E mais, o partido revolucionário no poder encarregou-se de perseguir e combater toda e qualquer escravidão religiosa. Fechou igrejas, proibiu seminários religiosos etc. Desapareceu a religião na então URSS? Não. A religião não é apenas produto da miséria social. É certo que o homem pensa Deus, contudo isto não demonstra que Deus seja apenas produto do que o homem pensa, muito menos de que Deus seja projeção do homem economicamente miserável. Mesmo que admitamos para argumentar, que a idéia de Deus muda com as relações econômicas, isto de modo algum prova que Deus seja apenas projeção humana dos economicamente miseráveis. Os ricos também clamam à Deus!

Na quadra histórica em que foi produzido, pode-se entender o marxismo como uma crítica ideológica ao cristianismo burguês da época, marcado por um certo alinhamento com forças contrárias ao progresso e a liberdade. Entretanto, daí não se pode concluir que o cristianismo sempre deva ser reacionário, nem que o marxismo sempre deva combater a religião, muito menos que o marxismo seja sempre uma força progressista. O certo é que Marx nunca estudou a fundo a religião, e esta só foi objeto de suas reflexões em virtude da religião fazer parte da estrutura social e econômica, esta sim seu objeto principal de estudo.Ademais de tudo, a religião, sobretudo o cristianismo no século XXI é a afirmação em si e por si da luta pela dignidade da pessoa humana, fixando limites necessários e indispensáveis ao agir da ciência, máxime em relação ao sentido da existência humana.
  

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