Átrio dos Gentios por Bento XVI
"...considero importante sobretudo o facto de as pessoas que se consideram agnósticas ou ateias deverem também estar-nos a peito a nós como crentes. Quando falamos de uma nova evangelização, talvez estas pessoas se assustem. Não se querem ver objecto de missão, nem renunciar à sua liberdade de pensamento e de vontade. E todavia a questão acerca de Deus permanece em aberto também para elas, mesmo se não conseguem acreditar no carácter concreto da sua solicitude por nós.
Em Paris, falei da busca de Deus como sendo o motivo fundamental donde nasceu o monaquismo ocidental e, com ele, a cultura ocidental. Como primeiro passo da evangelização, devemos procurar manter despertada esta busca; devemos preocupar-nos por que o homem não ponha de lado a questão acerca de Deus deixando de a considerar como questão essencial da sua existência. Preocupar-nos por que ele aceite esta questão e a nostalgia que nela se esconde. Isto traz-me à mente a palavra que Jesus cita do profeta Isaías, isto é, que o templo deveria ser uma casa de oração para todos os povos (cf. Is 56, 7; Mc 11, 17).
Estava Ele a pensar no chamado átrio dos gentios, que acabava de esvaziar de negócios externos a fim de o espaço ficar livre para os gentios que ali queriam rezar ao único Deus, embora sem poder participar no mistério, para cujo serviço estava reservado o interior do templo. Espaço de oração para todos os povos: ao dizê-lo, Jesus pensava em pessoas que conhecem Deus, por assim dizer, só de longe; que estão insatisfeitas com os seus deuses, ritos e mitos; que desejam o Puro e o Grande, mesmo se Deus permanece para eles o "Deus desconhecido" (cf. Act 17, 23).
Também elas deviam poder rezar ao Deus desconhecido e assim estar em relação com o Deus verdadeiro, embora no meio de escuridão de vário género. Penso que a Igreja deveria também hoje abrir uma espécie de "átrio dos gentios", onde os homens pudessem de qualquer modo agarrar-se a Deus, sem O conhecer e antes de terem encontrado o acesso ao seu mistério, a cujo serviço está a vida interna da Igreja. Ao diálogo com as religiões deve acrescentar-se hoje sobretudo o diálogo com aquelas pessoas para quem a religião é uma realidade estranha, para quem Deus é desconhecido, e contudo a sua vontade não é permanecer simplesmente sem Deus, mas aproximar-se d'Ele pelo menos como Desconhecido."
OBSERVAÇÃO MINHA - No dia 27 de Março realizou-se, no Auditório Vita, uma conferência acerca da viagem do Papa a Portugal intitulada Desafios e Esperanças, tendo como voz Aura Miguel, Vaticanista da Rádio Renascença. Neste breve vídeo a vaticanista fala sobre parte do discurso de Bento XVI (acima exposto) quando ele trata do Átrio dos Gentios. Interessantíssimo!
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