A cura integral
Salvador e sua alegria contagiante. Era o dono da pelada,
literalmente, cuidava do campo, da bola e até da cerveja depois dos jogos de
fim de semana. Seus amigos o chamavam de “salva”. Salvador há dias vinha
sofrendo com uma incômoda retenção urinária, mas não quis contar a ninguém, nem
mesmo a sua mulher. Todavia, a situação se agravou e Salvador teve que ir a um
pronto-socorro.
O clínico geral que o atendeu, medicou-lhe e recomendou
alguns exames de rotina além de encaminhar-lhe a um urologista. Mesmo reticente
Salvador foi, acompanhado de sua esposa. Após exames ficou constatado que
Salvador estava com um câncer de próstata. “Salva” aos 50 anos se sentia um
menino, era um dos que mais corria nas peladas. A notícia foi devastadora para
ele, ficou muito abatido, mesmo sabendo que o prognóstico de cura era-lhe muito
favorável.
Fez a cirurgia, e passou por um longo período de convalescença.
O médico explicou-lhe que no início teria um pouco de incontinência urinária e
até mesmo um pouco de perda de ereção, todavia, com o tempo e o fim do
tratamento da radioterapia e quimioterapia, tudo voltaria ao normal. Salvador
se abatera, profundamente. Apesar de não ser um católico praticante, acreditava
muito em Deus (e menos nos homens da Igreja), no entanto, era amigo de um frei
franciscano de sua paróquia, até porque prestava serviços de informática para
ordem franciscana.
Valendo-se desta amizade procurou frei Anselmo e contou-lhe
o seu sofrimento. O frei após fazer algumas orações com ele, e bater um longo
papo disse-lhe: − “Viver
é não impor condições. Aprenda a aceitar a vida como ela é, com suas dores e
alegrias, assim, sofrerá menos. Vive-a sem exigências, ok! Aceite sua cruz
amigo”. Salvador ouviu aquilo, guardou em seu coração, nos moldes do que fizera
Maria (Mãe de Deus) há dois mil anos atrás.
Os meses passaram e Salvador estava praticamente
reabilitado, entretanto, curiosamente não era mais o mesmo nas peladas de fim
de semana. Os amigos estravanham o jeito um tanto quanto “apagado” do querido “Salva”.
Sequer fazia esforço para entrar em campo, e a cerveja no freezer já não estava
mais tão gelada assim. E mais, Salvador estava distante da galera, que
assustada, respeitava sua posição. Salvador procurou um psiquiatra, contou-lhe
sobre sua tristeza e ouviu dele: −
“Em terapia a gente costuma dizer que depois da tempestade vem o sintoma, você
está vivendo o sintoma”.
Salvador não voltou mais ao psiquiatra, não estava a fim de “tratar”
do seu sintoma, que se resumia a uma tristeza “inexplicável”, já que estava
literalmente curado do câncer. Lembrou-se novamente do frei Anselmo e foi ao
seu encontro. Relatou ao frei todo o seu processo de cura e a profunda tristeza
que o acometia, e que parecia não ter fim. O frei com sua habitual serenidade o
respondeu carinhosamente: −
“A cura do corpo não ocorre na mesma velocidade do coração; a dinâmica do
coração é mais lenta; cura-se o corpo e não o coração; tenha calma com o seu
coração, o coração é da ordem da eternidade, lembre-se de Pascal, ‘o coração
tem suas razões’.”
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