As dúvidas de Rafael


A casa de Rafael estava em festa, era mês de férias, churrasco em família regado a muita carne e bebidas. Para sua felicidade os amigos também vieram e curtiram um domingo de sol a pino. Tudo conforme o esperado.

Rafael é um jovem com pais também bastante jovens. Foi criado num clima de modernidade, os pais universitários sempre curtiram aos avanços do mundo moderno, a sua tecnologia, as viagens para o exterior e todas as maravilhas que o mundo atual proporciona. Olhando assim de perto, era difícil de dizer que o pai e a mãe de Rafael eram de fato seus pais, tão jovens e tão belos.

Família sarada, todos frequentavam as academias. E muito. Certa feita, num diálogo entre pai e mãe, testemunhado por Rafael, a mãe assim reclamou do pai: ─ você está interessado no meu corpo. Com o que respondeu o pai: ─ engano seu, também sou amarradão no meu. De fato, eram corpos lindos e esculpidos em muita malhação. Rafael também era um jovem lindo e sarado, porém, diferentemente dos pais, possuía inquietações que não eram peculiares aos pais.

Naquele domingo festivoacima citado ─ no final da festa todos os amigos foram embora e ficaram os parentes de Rafael. O rapaz então se debruçou no ombro da mãe, e assim em tom melancólico falou-lhe: ─ estou sentindo um vazio..., e a mãe disse: ─ pede uma pizza filho. Rafael retrucou, ─ estou com uma insegurança..., a mãe disse, ─ compra um tênis novo, Rafael foi além, estou sentindo uma angústia, a mãe de imediato, ─ ligue para farmácia, meu filho, Rafael aumentou o tom de voz, estou sentindo uma solidão..., a mãe categórica recomendou, ─ entre no twitter e no facebook.

Rafael desistiu de expor suas dúvidas para mãe. Levantou-se e antes de sair da sala, de soslaio olhou para a vó que estava sentada em uma poltrona bem próxima, em silêncio profundo e quase em sono.  Ficou com peninha da vó e antes de se retirar lascou-lhe um beijo na testa. A vó carinhosamente segurou no braço sarado do neto, e sem falar qualquer palavra, puxou-lhe para perto abriu a mão carinhosamente e depositou em sua palma um crucifixo de remota data, não sem antes sussurrar-lhe ao ouvido: ─ foi de seu avô que era lindo e inquieto como você. Com um sorriso reconfortado no rosto, Rafael foi andar pelo jardim com o crucifixo fortemente apertado em sua mão...

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